sábado, 31 de maio de 2008

Outono

Era o começo do outono, a estação da espera. O intervalo da vida. E ali estava ela, deitada, pálida e imóvel. Artemis e seu outono.

As folhas passavam como borrões amarelados diante de meus olhos, atrapalhando a imagem alva na qual me concentrava. Levei a mão de veludo preto à minha face, em um gesto automático e inútil, para tentar enxugar as lágrimas de saudades que me escapavam. O mesmo vento que levava a folhagem trouxera a chuva, encobrira o céu. No vidro, meu reflexo quebrado pelas gotas que insistiam em cair. Ricocheteavam e explodiam, fragmentando minha visão. Preto, branco, cinza e o arroxeado dos lábios.

O ritmo da chuva começou a esmorecer e percebi que já estava sozinha ali há muito tempo. Todos já haviam ido embora e eu também deveria ir, para que o enterro propriamente dito pudesse ser realizado. Não me movi. Só Artemis poderia dar-me as respostas que eu tanto buscava. Precisava saber se estava fazendo a coisa certa. Precisava saber se estava fazendo a coisa certa antes de despedir-me e tomar meu caminho como todos os meus irmãos haviam feito.

Éramos quatro. Nunca entendi o porquê – e isso deveria ter bastado para que os cientistas percebessem que todo o experimento fora um grande fracasso desde o início. Eu deveria entender tudo, com minha inteligência excepcional, mas nunca compreendera porque não três, ou cinco, ou sete, ou algum número com um significado especial qualquer. Quatro. Zeus, Artemis, Apolo, Atena. Quatro seres humanos geneticamente perfeitos. Quatro deuses artificiais do século XXII.

Era um projeto ousado. Mil anos de aprimoramento em três. O “acelerador genético” inventado fez seu trabalho corretamente, e nós nascemos. Capacidade intelectual muito acima do que jamais fora visto, saúde "de ferro", sentidos aguçados, beleza intocável. Os novos deuses guardados do mundo até os vinte anos. Com um futuro grandioso pela frente. Quatro. Agora éramos três, pensei amarga.

Zeus, o mais velho, embrenhara-se na política assim que fora “liberado”, com grande sucesso. Destacara-se, é claro - perspicaz, audacioso, adorado. Logo seria presidente, os cientistas estavam maravilhados. No entanto, os planos começaram a desandar quando, no ano seguinte, Ártemis tentou levar uma vida normal, sem grandes ambições. Quem lhe dera o direito de desperdiçar seu dom? Que fosse salvar o mundo, não trabalhar ou formar família.

Sorri. Eles nunca entenderiam. Pois o que nunca fora previsto, o que nenhum geneticista conseguira dominar, era a nossa humanidade. Sentimentos, ações, pensamentos. Éramos tratados como divindades por nossos criadores – a ironia! Nunca fomos mais que homens.

Artemis, de branco e branca, calma. O outono de nossas vidas. Tão apropriada. Só na morte encontrara refúgio. A cerimônia fora silenciosa, quase vazia, como ela teria gostado. O enterro particular de uma vida pública.

Apolo não comparecera. Conhecia seus motivos, mas ainda assim doía-me sua ausência. Eles haviam nascidos juntos, vivido juntos. Ligação especial que apenas irmão gêmeos possuem. Mas Zeus não o deixaria entrar. Culpava-o pela morte de Artemis; além disso, não se podia permitir – ele, o novo presidente, recém-eleito – ser flagrado com um criminoso.

Artemis buscava a normalidade, Apolo, a fama, pelo caminho mais fácil. Não lhe fora difícil formar uma quadrilha, invadir sistemas, arquitetar assassinatos. Sabia ser "superior" e aproveitava-se disso. Não era muito diferente de Zeus – caminhos diferentes para um mesmo fim. E minha irmã se matara. Pela mídia, pela traição, pela pressão. Desistira. Entendera.

Esperava-se que eu me juntasse a Zeus. Que provasse a experiência um sucesso. Dois haviam falhado; dependia de mim, agora com vinte anos, livre, superar as expectativas.

Mas a vitória jamais viria. Porque o fracasso nascera conosco, nascera nos nomes, nascera no número. Não éramos deuses, nem nunca seríamos; a força física era proporcional à fraqueza do espírito. Envelhecíamos sem mostrar, podres interiormente. Nenhum exame indicava, ninguém desconfiava. Mas nós sentíamos. Alguma coisa dera errado.

Orgulho, ambição, crueldade até. Almas corrompidas que nos matariam por dentro. Zeus queria governar, explorar, tomar para si. Apolo visava a dinheiro, fama, poder. Artemis sucumbira à própria fraqueza. E eu resistia.

Perguntei-me novamente se estaria agindo corretamente. Minha irmã matara a si mesma. Eu mataria a nós três. A carta chegaria à comunidade científica e aos jornais, explicando nossa origem. Nossos defeitos. Nossos objetivos. Daria luz ao povo. Falsos deuses deveriam ser queimados. O inverno aproximava-se. E não haveria mais estações para nós. Até logo, Artemis.

Mais uma redação que me parece tão adeqüada. Pra terminar maio, pra oficializar o outono.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O cinza das rosas

That's the problem with fireworks. They fade away pretty quickly. (Meg
Cabot)

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro em que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas. Para Rosa, acabara com uma cigarrilha o amor que com uma delas começara.

Encontraram-se por acaso, dois estranhos abrigando-se na noite gelada, fugindo de uma festa na qual deveriam, mas não queriam estar. Ele de casaco escuro, fazendo-se notar apenas pelo ponto luminoso entre os lábios. Ela de carmim, saltos intrusos pontuando o silêncio negro. Ele rira da pretensão daquela desconhecida, que lhe perguntara, chocada, se ele fumava, como se o conhecesse há muito tempo; divertira-se com as opiniões formadas a respeito de tudo. Ela corara, sorrindo. Ele não vira. Começara ali. Terminara um inverno depois.

Fora quase como um espelho. Enquanto Fernando exalava a fumaça de mais uma de suas cigarrilhas pardas, infestando o ar da pequena sala limpa e organizada da namorada, Rosa o observara atentamente. Seu coração já não batia mais rápido ao vê-lo, os gestos rotineiros pareciam-lhe estranhos e ela não mais achava graça quando ele lhe oferecia o vício antigo, mesmo sabendo que ela não o suportava. Ela já não sentia nada, tão de repente quanto sentira tudo naquela noite.

O pequeno cilindro de tabaco jazia esmagado agora no cinzeiro de vidro. Rosa mexia nas pontas do cachecol colorido que lhe enfeitava o pescoço, as unhas perfeitamente arrumadas - tão pequenas e igualmente arredondadas nas extremidades, cobertas uniformemente por um esmalte claro, verniz para as imperfeições - a distraí-la do olhar desesperado do homem à sua frente. Os olhos castanhos haviam perdido o ar brincalhão que sempre os habitara e pareciam repletos de descrente desesperança, como se a tentar assimilar o que ela dissera há alguns minutos. Talvez quisesse acreditar ser tudo uma brincadeira.

- Por quê? - perguntou, com a voz trêmula.

Seria justo dizer-lhe a verdade? Que não lhe queria mal. Apenas... Não o queria mais. Pois quem pode atrever-se a entender o amor, transformá-lo em palavras - tanto seu começo quanto seu fim? Teria a ousadia? Optou por uma mentira branca. Desculpas disfarçadas de verdade a fim de manter a ordem das coisas.

Viu-o desaparecer atrás da porta de madeira escura; ele não notara que as mãos dela tremiam, nem que os olhos verdes imploravam-lhe algo. Sentiu as unhas cortarem-lhe as palmas das mãos, espinhos a perfurar-lhe a carne alva para impedir a saída do grito que lhe entalava a garganta. Se ao menos ele tivesse olhado para trás... Tudo que ela queria, abandonada à sua própria solidão, era que ele a fizesse sentir. Algo. Novamente.

O amor acaba, mas não deveria. Permitiu-se chorar, vazia, sozinha. Rosa desbotada em meio às almofadas pálidas. E o cheiro da cigarrilha impregnado no jardim.

Eu vou, adeus.

E é uma pena. Mas você não vale a pena. (Maria Rita)

E então a raiva veio.
Como é bom, como é bom! :)

Eu só queria dizer pra você nunca mais vir escurecer a minha porta, nas sábias palavras de Meg Cabot.

E o amor foi embora com a mesma facilidade com que veio. Eu disse que era melhor nunca quebrar minha confiança.

domingo, 18 de maio de 2008

Des-pedaços

E então tudo acabou.

Sem que ela esperasse, ou tivesse aviso algum, acabou. De repente. Seu coração vazio não queria assimilar o que ele dissera, e, teimoso, insistia em bater por ele. Mesmo estando vazio. Mesmo estando quebrado.

Ela queria, no fundo, que fosse como nos filmes, todos aquelas que ela vira ao crescer e que lhe encheram de fantasias a cabeça: esperava que ele se proclamasse arrependido e ainda profundamente apaixonado, e que se recusasse a desistir dela. Que ele a perturbasse até que ela o aceitasse de volta. E talvez ela aceitasse, quando a raiva passasse. E tudo ficaria bem.

Não ficou. Ele não implorou, sempre apático e rogando-se culpado, sem jeito, burro, inconseqüente, mas nunca pedindo-lhe que o tivesse de volta. Aceitou sem lutas o “acabou” que saíra da boca dela, como se não notasse a dor dela ao dizê-lo, o pesar. O pedido implícito. Lute. Lute.

Não lutou.

E a raiva não veio, e coração a bater, eco descompassado nos rasgos da alma. E ela a chorar, sozinha.



De repente, tão, tão cinza. Tão Rosa.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

E se lembrou de quando era uma criança
E de tudo o que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui.
(...)
O povo declarava que João de Santo Cristo
Era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na história
Que eles viram da TV
E João não conseguiu o que queria
Quando veio pra Brasília com o diabo ter
Ele queria era falar com o presidente
Pra ajudar toda essa gente que só faz
Sofrer (Faroeste Caboclo, Legião Urbana)

A gente sai de uma aula de narratividade/semiótica e começa a analisar tudo que vê pela frente. E começa a pensar no porque nunca se dá ênfase à manipulação, mesmo sendo ela a parte mais interessante. E vê como essa música é linda.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

A tênue linha do espelho

Estou irritada e não sei bem o por quê.

O frio enregela-me os dedos desprotegidos, sinto um resfriado aproximar-se, minha capacidade de concentração parece ter-se esvaído e a folha à minha frente permanece em branco. Se ao menos eu pudesse fazer com que minhas idéias embaralhadas tomassem formas concretas, lógicas, se os detalhes pudessem materializar-se aos meus olhos e não se perderem mais ao acaso. Os nomes começam a confundir-se, as histórias, as famílias, as personagens. Tantas tramas, e nenhuma. Tantas coisas, e nada. Irrito-me por um motivo maior, mas não consigo alcançá-lo. Foge-me à percepção assim como o amor escapou de Rosa. Sem que ela soubesse, entendesse. Mas sabia que tinha acabado. E eu sei que estou irritada.

Talvez eu seja seu contrário. Não quero calma nem linearidade, não quero unhas claras e almofadas pálidas a sufocar-me. No entanto, talvez ela também não quisesse. E ela não queria. Talvez eu seja apenas seu espelho. Ou ela o meu.

Mas o contrário, o contrário! Pois que meu amor não acabou, não, não, está bem vivo. Está vivo e corrói-me, coisinha traiçoeira e egoísta. Tão calmo, e por vezes tão assustadoramente perturbado. Tão necessário. Vital.

Por que preciso dele? Que me importa se me liga, se deixa de ligar, se escreve-me ou diz que me ama, se não diz? Contudo, importa. Importa-me, irrita-me, distrai-me. E lá está ele de novo, o vislumbre, a poucos passos.

Foge-me, como Rosa e Clara e Alba e Nívea e Bárbara. Fogem-me as palavras para codificar as relações humanas. Faltam-me vocábulos para codificar-me.

domingo, 4 de maio de 2008

Desarranjo

Não quero ilusão, descaso, ou mesmo atraso qualquer
Que me ponha amarras, que me impeça de ser
Sou a que nasce sem dono, de asas e pouso assim
Pois que se me atas tua, alento tiras de mim

Essência desalinhada, fugidia de padrões
Que se esquiva das novelas e morais de gerações
Talvez seja o vôo que arrasta, breve qual sonhar do vento
A tornar-me temporã das esperas deste tempo

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