Estou irritada e não sei bem o por quê.O frio enregela-me os dedos desprotegidos, sinto um resfriado aproximar-se, minha capacidade de concentração parece ter-se esvaído e a folha à minha frente permanece em branco. Se ao menos eu pudesse fazer com que minhas idéias embaralhadas tomassem formas concretas, lógicas, se os detalhes pudessem materializar-se aos meus olhos e não se perderem mais ao acaso. Os nomes começam a confundir-se, as histórias, as famílias, as personagens. Tantas tramas, e nenhuma. Tantas coisas, e nada. Irrito-me por um motivo maior, mas não consigo alcançá-lo. Foge-me à percepção assim como o amor escapou de Rosa. Sem que ela soubesse, entendesse. Mas sabia que tinha acabado. E eu sei que estou irritada.
Talvez eu seja seu contrário. Não quero calma nem linearidade, não quero unhas claras e almofadas pálidas a sufocar-me. No entanto, talvez ela também não quisesse. E ela não queria. Talvez eu seja apenas seu espelho. Ou ela o meu.
Mas o contrário, o contrário! Pois que meu amor não acabou, não, não, está bem vivo. Está vivo e corrói-me, coisinha traiçoeira e egoísta. Tão calmo, e por vezes tão assustadoramente perturbado. Tão necessário. Vital.
Por que preciso dele? Que me importa se me liga, se deixa de ligar, se escreve-me ou diz que me ama, se não diz? Contudo, importa. Importa-me, irrita-me, distrai-me. E lá está ele de novo, o vislumbre, a poucos passos.
Foge-me, como Rosa e Clara e Alba e Nívea e Bárbara. Fogem-me as palavras para codificar as relações humanas. Faltam-me vocábulos para codificar-me.
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