quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Partir

"A Rússia é longe pra caramba."

Esse era o único pensamento na cabeça dela naquele momento. Longe. Distante. Muito. Idéias desconexas indicando numa mesma direção: aquilo não podia ser bom. Como uma pessoa querida mudando-se para um país do outro lado do mundo podia ser bom? Um país conhecido pela corrupção, abuso sexual feminino, falta de liberdade de imprensa, máfia etc. Um país com uma cultura totalmente diferente, uma língua completamente bizarra, um tempo intolerantemente frio.

Não podia ser. Ela tinha que ter entendido errado. Rússia. Era muito longe. Era pra onde as pessoas diziam que iam quando estavam brincando - "Não, vou ali na Rússia". Era a puta-que-o-pariu, pra ser bem sincera. E como é que podia ser bom ter sua melhor amiga de anos indo morar de repente num lugar assim? Como podia ser bom ela largar a família, os amigos, ela? Bem numa época perturbada - ela não tinha idéia do que estava acontecendo? Numa época daquelas. Época de mudanças. Ela trazia mais um medo.

Mas então lembrou-se de toda imagem que se tinha do Brasil no exterior, e de como sempre pegava-se percebendo quão distorcida aquela era. Porque São Paulo era uma cidade maravilhosa, a universidade era uma experiência única, violência era um problema com o qual se tinha que lidar e tudo aquilo valia a pena. Sentiu-se hipócrita e mesquinha.

Pensou em como odiava que tentassem controlar sua vida. Se tivesse a chance, gostaria que alguém se colocasse obstáculo? Com orgulho lembrou a prima querida, na longínqua Alemanha - lançara-se com cara e coragem e crescera como provavelmetne jamais cresceria, tivesse hesitado.

Por fim veio-lhe à mente o dito. "Quem ama tem que deixar partir."

E, com lágrimas nos olhos e o coração na mão, ela deixou.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Fragmentos

Hoje chorei como eu não chorava há algum tempo. A última vez que me lembro de algo assim foi ano passado, após ver um filme sobre o Afeganistão - chorei pelo mundo e por tudo e desabafei em um e-mail pra um (quase) desconhecido. À época, me fez bem escrever - talvez por isso eu esteja recorrendo ao mesmo recurso agora.

Mas as situações não são parecidas, e a comparação provavelmente só pode ser feita por causa das lágrimas. Diz minha pseudo-psicóloga-amadora que tudo isso é normal (quando eu tento minimizar as causas) e que não é estranho eu me sentir meio sem chão com tanta freqüência ultimamente. E olha que o motivo das (últimas) lágrimas ainda nem tinha se dado.

Então, vê, mudar de cidade, entrar na faculdade, ter medo do novo, isso abala uma pessoa. E eu, insegura de berço (preciso descobrir qual meu ascendente), me peguei chorando sozinha mais vezes do que gostaria e sem conseguir sair dessa. Graças ao universo existem pessoas legais que te fazem sentir em casa.

Não tenho nada pra escrever. O começo desse texto poderia ser bem o meio ou o final, porque o pranto foi tudo e tanto que não tem lugar certo. Me ajudou a melhorar mesmo me fazendo sofrer, me levando as feridas, me levando.

Então eu não moro mais com meus pais. Então eu estou longe dos meus amigos. Então as pessoas mudam. Então a Rússia é longe pra caramba. Então pessoas não se importam. Então pessoas aparecem. Então você conhece gente nova.

Então o mundo gira.

Céus, isso não ficou nem ligeiramente poético, e eu não me importo, pela primeira vez há muito tempo.

Como é bom ter vontade de escrever.

(não estou com paciência pra fotos - quando der na telha volto a postar avatares)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Solidão

Preciso escrever. Às vezes me vem essa necessidade, mas cada vez menos me vejo realmente dar-me um tempo para isso. Incrível como colocar apenas essa sentença organizada em palavras me fez refletir já sobre tantas coisas: tanto tempo livre, e dedico menos e menos dele para mim mesma. Clarice se envergonharia.

Preciso ler. Romances imensos, histórias alheias, reflexões sobre a vida o mundo problemas e descobrir que sou tão igual a tantos que me desconheço verdadeira. Nos achamos tão diferentes que acabamos, normalmente, por não ver o que somos de fato ou as pequenas linhas verdadeiramente desiguais.

Preciso escrever. Sim, preciso, sobre o quê não sei. Tanta mudança e eu sozinha igual a tantas outras vezes, e me irrita que muitos vejam isso como algo errado, sendo na verdade condição necessária para eu me sentir bem. Em muitos casos. Talvez não nesse. Sinto todos indo embora - ruas, cidades, países, nichos, gostos, vidas - e não consigo me ater a nada - cada começo sem final me destrói mais um fio. De pensamento. Filete de sangue. Fio de cabelo. Linhas na pele. Veias. Nervos. Coração.

Preciso ler. A vida dos outros, vista por quem está de fora, traz-nos visões tão distintas sobre situações tão comuns e é disso talvez que eu mais necessite. Alguma solução no problema do outro para ser aplicada como remendo - ou remédio - no meu. Problema. Caso. Modo. Não só preciso, mas quero, descobrir. Sobre o que escolhi e está por vir. Quero saber o que me espera e me aflige não ser isso exatamente - ou perfeitamente - possível. Mas quando lemos não temos o controle.

Preciso escrever. Preciso sentir que alguma coisa ainda depende dos meus pensamentos e das minhas idéias e da minha vontade.

Preciso de vontade.

Preciso me entender.

Estou naquela típica fase de contestação de si mesmo e sempre me foi necessário um apoio sólido. Mas a roda não espera, e os outros se vão, e enquanto me descubro eu fico só.

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