terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Verbos

Eu podia falar sobre tempo livre. Eu poderia falar sobre provas.

Eu podia falar sobre livros. Eu poderia falar sobre sonhos.

Eu podia falar sobre paixões. Eu poderia falar sobre desejos.

Eu podia falar sobre espera. Eu poderia falar sobre não fazer diferença.

Eu podia falar sobre amizades. Eu poderia falar sobre laços.

Eu podia falar sobre incertezas. Eu poderia falar sobre lutas.

Eu podia falar sobre liberdade. Eu poderia falar sobre pensamentos - e atitudes.

Eu podia falar sobre distância. Eu poderia falar sobre algo que ninguém conseguiria entender.

Eu podia falar de incompreensão. Eu poderia falar de cadernos.

Eu podia falar de viagens. Eu poderia falar de lares.

Eu podia falar de histórias. Eu poderia falar de planos.

Eu podia falar de ciclos. Eu poderia falar de crescimento.

Eu podia falar sobre memórias. Eu poderia falar sobre personalidades.

Eu podia tentar resumir as expectativas em algumas poucas linhas. Eu ainda poderia.

Eu poderia muitas coisas, assim como já pude. Que no próximo ano eu possa um tanto mais. E vocês também.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Amor pintado

Dei de escrever no LiveJournal, tendo finalmente tomado vergonha na cara e arrumado minha página lá - ainda tendo sida minha conta criada com o único intuito de ler fanfictions em sua maioria não apropriada para menores de idade.

Me vi criando, logo no primeiro post, uma história (para lê-la, você tem que me adicionar como amigo no LJ), como nunca antes me ocorrera, e já pelo terceiro dia lá escrevo, embora os dois últimos posts tenham sido mais voltado para o lado "querido diário" da coisa. Essa facilidade súbita para botar em vocábulos meu dia-a-dia e expressões pôs-me a pensar - nunca me foi fácil escrever sobre mim mesma assim de cara, em primeira pessoa, relatando o que fiz ou deixei de fazer, o que quero, o que penso, desejo. Escondo-me nas personagens que crio, pouco a pouco e detalhe a detalhe, um livro ou frase aqui e traços de personalidades múltiplas: são essas as tintas das quais falei certa vez. Pois descobri, agora e assim, que esconder-me na língua estrangeira também é fato válido e artifício novo, e vem daí a facilidade: é como se fugir do português me capacitasse escrever sobre mim sendo outra. Se isso é bom ou ruim... Serei um pouco socióloga e direi que nenhum dos dois; atesto apenas o fato.
***
Sobre o amor, suas faces e meu prisma
Desentendimentos a respeito do post passado levaram-me a ver que eu talvez tenha me expressado mal.
"amor incondicional ao qual eu gostaria de me render um dia"
O amor de Ricardo por Lily chega a ser doentio - e não, eu não desejo isso pra ninguém. Mas atire a primeira pedra a garota que nunca sonhou com seu próprio tipo de príncipe encantado, com aquele cara que, faça você o que for, continuará a te amar pelo resto da vida. A gente cresce sonhando com um amor assim, porque ele parece ser a melhor coisa do mundo - e talvez seja, se você o corresponder. É a isso que eu gostaria de me render um dia: esse gostar tanto que nada parece ser obstáculo grande demais, esse querer meio louco, essa obsessão recíproca feita sadia com o tempo.
"conhecendo minha natureza (...) recusaria, fazendo proveito quando desse na telha, essa devoção quase doentia"
A questão é que o amor só é válido quando parte dos dois lados da relação, e se ele me aparecesse agora, eu muito provavelmente me utilizaria dele pra certos proveitos e o dispensaria depois.
"O amor só me vale quando me preenche - o unilateral não me interessa."
Me preencher, no caso, não significa completar um vazio qualquer, mas sim complementar-me no que já sou sozinha, preencher os pequenos pedaços aos quais não se tem acesso quando não se está com alguém. Mas isso só ocorre se o sentimento for recíproco, se você amar tanto quanto for amado - senão, o sentimento é um peso morto. Por isso, não me interessa o unilateral.


Bruh: não acredito que exista, mas meu lado garotinha sonhando com contos de fadas gosta de acreditar que sim. O lado mais realista acredita que ele pode ser, no máximo, obsessivo. Mas eu nunca fui mãe, então talvez ele exista, sim, mas nessa forma que ainda me é desconhecida.

Tarsila: mas é exatamente isso que eu penso, por isso não me valem amores unilaterais (só eu amando, ou só sendo amada). Quero ser preenchida de um amor que venha de dentro e de fora, de todos os lados, de mim mesma e do outro, de mim e para mim, de mim para o outro. Precisar ser completada por outra pessoa não dá certo - a gente ama bem quando se ama primeiro. Mas também há de se deixar amar. O que eu quis dizer é que eu recusaria um amor de Ricardo tão obsessivo, pois não me basta que seja tão louco de um lado só, eu teria que sentir o mesmo, e me conhecendo, isso seria difícil.

Kamilla: concordo com você, nunca disse o contrário no meu post.

Aline: não preciso de um marido rico, só de alguém que queira me sustentar sem compromissos! Hahaha.

Nana: eu tenho essa ambição quando a falta de dinheiro me impede de fazer certas coisas, mas na maior parte do tempo sou mais do que feliz com o que tenho.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Catarina

Não sou santa, mas aceito doações

Às vezes eu penso que poderia muito bem me chamar Lily. Não sei se eu teria o sangue-frio necessário, a distância emocional imposta precisa, mas de certo entendo seus motivos. Se reclamo de não poder gastar muito dinheiro em um final de semana, ou de não ter recursos próprios pra viajar sozinha, que faria eu na situação da chilenita guerrilheira, nascida em condição de miséria? Jamais poderia acusá-la por tentar - ainda que dos modos mais obscuros - melhorar sua vida no quesito material, uma vez havendo nela a necessidade de atrelar o emocional ao bem estar físico.

Mas visto que não posso obter ajuda financeira pelos meios da alpinista social de Vargas Llosa, me contento em reclamar da minha má sorte por não ter nascido rica - como eu queria, bom Deus! Ei de sê-lo, ei de sê-lo - tenho um cunhado e uma irmã economistas para quê?

Nessas horas desejo também um Ricardito, que com sua vida medíocre de tradutor me daria o que quer que fosse. Não me refiro só ao dinheiro, mas a um amor incondicional ao qual eu gostaria de me render um dia. Mas me engano, talvez, ao pensar assim, pois conhecendo minha natureza e vendo nas linhas da história minha essência, reconheço que agiria mais uma vez como Lily e recusaria, fazendo proveito quando desse na telha, essa devoção quase doentia. O amor só me vale quando me preenche - o unilateral não me interessa. Não nego, porém, que ter um Ricardo nessas horas de ataques meio loucos cairia bem - alguém que atenderia meus pedidos e me proporcionaria o prazer que desejo.

Sou mais Lily do que gostaria de ser. Uma Lily num momento Catarina.

Ricardo e Lily são personagens do romance "Travessuras da menina má",
de Mario Vargas Llosa


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