Ela acordava todo dia bem cedo, do lado esquerdo da cama, sem fazer barulho.Arrumava a casa, organizava o mundo, abria frestas nas janelas para trocar o ar. Às oito, ela beijava o marido e ele ia ganhar o dia. Às nove, ela saia de casa. Trancava as portas, as janelas, os armários e gavetas. Não tinha crianças de quem cuidar.
Atravessava as ruas da cidade blindada pelos vidros escuros. Protegida do estranho pelo carro - presente do marido -, não abria as janelas. Não passava por ruas estreitas. Não sentia o vento. Odiava ter que andar a pé. Mas o fazia, todo dia às cinco - ia tomar um café, à tarde, no Café a uma quadra do escritório. Segurava a bolsa com força enquanto andava - o spray de pimenta ao alcance das mãos. Nunca ia sozinha. Nunca se demorava.
O escritório era seu recanto. Passava ali seus dias, na sala particular à Rua da Constituição - mais apropriado, impossível! Escritório em bairro nobre, a algumas quadras de casa. Encontrado pelo marido. O orgulho, ah. Uma foto do esposo em cima da mesa, quadros iguais aos de casa nas paredes. Não dava quase tempo de sentir saudades.
Suspirava, toda nove e meia. Não suportava a mediocridade dos clientes. Mas ela era mulher moderna, formada até mesmo antes de casar, porque casara com um homem moderno que não se importava - a sorte! Advogava, então, com sorrisos serenos e desesperados. Não se questionava. Era uma boa filha, uma boa mulher: cursara uma faculdade respeitada, não seria pobre nem solteirona. Não passaria fome, não moraria na rua, não seria mulher perdida, teria filhos. Advogava, então. Com os olhos opacos, e as mãos agitadas, e alguns comprimidos para a dor de cabeça. Organizava a bagunça alheia (ela sempre tivera mesmo horror a coisas fora do lugar). Ia para casa às seis. Todos os dias.
Assistia ao noticiário com o marido. Não gostava muito da parte de políticas, mas ansiava pelas notícias escandalosas. Assassinatos. Seqüestros. Assaltos. Sentia um prazer macabro com a dor dos outros. Sentia um prazer estranho em sentir medo. Lembrava-se de trancar as janelas.
Preparava o jantar. Arrumava o lar. Comia, deitava, deixava-se beijar. E, do lado esquerdo da cama - com os medos do mundo, e as escolhas não feitas, e os desejos calados, e os sonhos mortos, todos trancados nas gavetas; e ela sozinha, e ela trancada, e ela tão uma, e ela tão nada -, não se questionava.
Todos os dias, ela não era.
Eu não sei o que é que me atrai tanto em traduzir histórias. Trazer a outras pessoas algo pelo qual me apaixonei, descarregar minhas frustrações por não conseguir terminar um texto meu, treinar meu vocabulário. Um pouco de tudo. Mas, principalmente, sentir que estou dando vida, ainda que por palavras emprestadas, a um mundo totalmente diferente do que aquele no qual vivo. Todo dia, todo dia, já não me agüento mais nesse não agüentar de tudo.